18.09.08

De que vale a um país ter uma grande história, se tem memória curta. Portugal esquece-se muitas vezes do que vai a dizer a seguir e erguendo o dedo em riste, como se fosse muito importante, admite com embaraço que se esqueceu do que tinha em mente “Eu queria dizer algo de muito importante, que é precisamente o dia…. peço desculpa que esqueci-me agora!”. E posto isto, Portugal fala e conta outra história, esmiuçando a memória como se fosse um disco rígido ou um cd que pura e simplesmente não lê e se ouve aquele barulhinho do cd às voltas. Portugal é esse barulhinho, essa espécie de ar suspenso, esse andar às voltas na tentativa de encontrar não se sabe muito bem o quê. Portugal muitas das vezes não sabe o que ia a dizer a seguir e enquanto não se encontra vai contando outra história, vai andando às voltas, como quem não arranja posição para se sentar. O barulhinho. Portugal sente esse desconforto, essa posição incómoda que muitas das vezes surge por ficarmos demasiado tempo no mesmo sítio. E por isso ajeita-se. Não existe no mundo nenhum país que se ajeite tanto como o nosso, daí que não seja de estranhar que numa situação de maior estorvo usemos invariavelmente a expressão: “Dê-me lá um jeitinho!”. E se não dão, porque sabemos ser só um jeitinho, revoltamo-nos nesse mesmo agora “O sacana do gajo que foi incapaz de me dar um jeitinho para eu estacionar” “a palerma da miúda que mesmo percebendo que eu estava que não podia só por a ver, foi incapaz de me dar um jeitinho”.

 

 

E por isso, Portugal põe-se a jeito por estar à espera desse jeitinho. Chegando para lá da hora de embarque- “Dê-me lá um jeitinho! – passando o prazo que havia para pagar, querendo sair dali o quanto antes, fazendo tudo para que a filha entre depressa na função pública – dê-me lá um jeitinho - que o carro seja composto fora da hora do expediente, que me aprove esta obra há tanto tempo embargada, que feche os olhos, que apague a luz – Dê-me lá um jeitinho – que passe à frente de todos que estou com muita pressa, que chega-se para lá que cabemos todos neste banco de comboio. E sabem que mais? Eu gosto deste jeitinho de ser português e nada haveria de mal se os outros países também o tivessem. O problema do jeitinho é não existir em mais lado nenhum, como se fosse um idioma que só se fala naquele país. Daí que não nos percebam quando reclamos. O problema do jeitinho é não ser exportável, pois se o fosse, há muito que o jeitinho já não seria só nosso.

 

Fernando Alvim

 

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publicado por José Oliveira às 17:17

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